segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Canções sem palavras



Um eclético. Além de compositor, ele era também pintor, escritor, esportista, praticava natação, esgrima e equitação- e, segundo consta, era exímio dançarino. Homem refinado, poliglota, membro de uma rica família de banqueiros e intelectuais judeus convertida ao cristianismo, Felix Mendelssohn mostrou-se um talento precoce. Com apenas 17 anos, compôs uma unânime obra-prima: a abertura para Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night's Dream), baseada na obra de William Shakespeare.

Um ano antes, compusera um octeto para cordas. Aos 20 anos, já havia composto uma boa quantidade de cantatas, sinfonias, óperas, quartetos e concertos. Nascido em Hamburgo, na Alemanha, em 3 de fevereiro de 1809, foi idolatrado como gênio por seus contemporâneos germânicos. Sua música, porém, foi banida do país durante o nazismo.

Era neto do filósofo judeu Moses Mendelssohn e, desde cedo, teve uma educação esmerada. Vivendo em um ambiente culturalmente sofisticado, em meio abastado, recebeu da mãe as primeiras lições de piano e, aos 9 anos, publicou uma tradução de Andria, obra clássica de Terêncio, célebre poeta da Roma antiga.

Na mesma época, já apresentava seus primeiros concertos e, aos 12 anos, chegou a tocar especialmente para o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Apesar da enorme diferença de idade, Goethe então tinha 72 anos, os dois teriam ficado grandes amigos. Mais tarde, na Universidade de Berlim, seria aluno do filósofo Georg Friedrich Hegel, ao mesmo tempo que estudava desenho e pintura na Escola de Belas Artes.

Quando completou integralmente seus estudos acadêmicos, Mendelssohn recebeu a permissão do pai, o banqueiro milionário Abraham Mendelssohn, para, enfim, dedicar-se em tempo integral à música, sua maior paixão. Também com a devida autorização e o financiamento paterno, empreendeu uma série de longas viagens pela Europa, com o objetivo de ampliar ainda mais seu universo cultural e musical. Esteve, por exemplo, na Inglaterra, Irlanda, Áustria, Itália e França. Pelo caminho, fez amizades com vários compositores, a exemplo de Chopin, Liszt e Berlioz.

Ao conhecê-lo, Berlioz escreveu: "O que ouvi dele me entusiasmou, estou fortemente convencido de que é um dos maiores talentos musicais de nosso tempo e é também uma dessas almas cândidas que raras vezes encontramos". Já o poeta Heine o trataria como um "segundo Mozart": "Excetuando-se o jovem Mendelssohn, que é um segundo Mozart --e sobre isso todos os músicos estão de acordo-- não conheço nenhum outro músico genial em Berlim", disse Heine.

Além do mérito de sua própria obra, Mendelssohn também foi responsável pela redescoberta de outro gênio da música universal. Em 1829, regeu em Berlim a Paixão Segundo São Mateus, do então esquecido Johann Sebastian Bach, cuja obra havia conhecido por meio de seu professor de piano, Karl Friedich Zelter. A partitura de Bach, que não era levada ao público desde a morte do compositor, ocorrida quase um século antes, fora-lhe presenteada pela tia-avó, Sara Levy.

O amor de Mendelssohn pela música barroca de Bach levaria o amigo Berlioz a comentar: "O único defeito de Mendelssohn é que ele ama demasiadamente os mortos".

Mendelssohn era também admirador de Handel, de quem recebeu notória influência. Além disso, foi um dos primeiros músicos a valorizar os últimos quartetos de cordas compostos por Beethoven, composições consideradas um tanto quanto herméticas naquele tempo.

Em 1837, Mendelssohn casou-se com Cécile Jeanrenaud, filha de um clérigo da igreja francesa, com quem teve cinco filhos. Em 1843, fundou o prestigioso Conservatório de Música de Leipzig, onde junto com outros mestres, como Robert Schumman, dava aulas de composição e piano. Quatro anos mais tarde, sua irmã, Fanny Mendelssohn, também compositora, morreu subitamente. Ao receber a notícia, em Frankfurt, Mendelssohn passou mal e desmaiou. Os médicos diagnosticam uma trombose cerebral.

A partir de então, sua saúde nunca mais seria a mesma. Vítima de violentas e sistemáticas crises nervosas, viajou para uma temporada de repouso na Suíça. O tratamento não deu muito resultado. Quando retornou de lá, sem condições de trabalhar, pediu demissão do Conservatório de Leipzig. Em 4 de novembro de 1847, com apenas 38 anos, morreu em meio a um ataque de apoplexia (perda temporária da função cerebral).

Contexto histórico

Para muitos, Mendelssohn não é um romântico, como seus contemporâneos, mas sim um epígono, ou seja, um mero continuador da geração anterior a sua, o Classicismo. O rótulo, no entanto, não lhe faz justiça. Ainda que sua obra tenha dívidas evidentes para com a música vienense, sua produção mais madura caracteriza-se justamente pelo equilíbrio entre a forma clássica e o colorido do Romantismo. Além do mais, sua linguagem musical é extremamente pessoal.

Portanto, pode-se dizer que Mendelssohn se inspirou em sentimentos genuinamente românticos, muitas vezes baseadas em temas literários (característica do Romantismo musical), para compor obras com apurada qualidade formal, especialidade do Classicismo.

Sua vida pessoal, cercada de confortos materiais e do ambiente intelectual sofisticado, não se prestaria mesmo aos arroubos e à mítica do estereótipo do artista romântico, tuberculoso, idealista, miserável e meio louco.

Sua música pode ser classificada como uma espécie de "Romantismo Semi-Clássico". Uma de suas principais composições, o Concerto para violino em mi menor, opus 64, de 1844, é sem dúvida uma das mais melodiosas e sensíveis peças da música do século 19.

No século 20, com a chegada do nazismo de Hitler ao poder, a música do judeu Mendelssohn foi banida das salas de concerto na Alemanha. O veto nazista, junto ao preconceito geral de que era um artista que conseguira tudo na vida sem ter feito o menor esforço, foi responsável pelo relativo esquecimento a que sua obra seria submetida durante muito tempo em seu país de origem. Esquecimento que, em certa medida, Mendelssohn experimentaria em todo o mundo.

Hoje, tais julgamentos não fazem o menor sentido. Apesar de algumas obras para piano terem caído, de fato, em desuso, outras obras são bastante executadas, como algumas das Canções sem palavras ou as Variações sérias. Também a música de câmara tem estado presente no repertório.

Curiosidades


Música para noivas

Uma das obras mais conhecidas de Felix Mendelssohn é, sem dúvida, a "Marcha Nupcial", composta em 1842, incluída em Sonho de uma noite de verão e, até hoje, presença obrigatória no início e no final das cerimônias de casamento em todo o mundo.

"Sinfonias de turista"

Algumas das melhores sinfonias compostas por Mendelssohn foram inspiradas pelas muitas viagens que fez pelo continente europeu. Quando morou em Roma, por exemplo, em 1833, compôs sua Sinfonia em lá maior, que ficou conhecida como "Sinfonia Italiana". Em 1842, na Escócia, compôs a Sinfonia em lá menor ou "Sinfonia Escocesa". Por causa disso, há quem chame essas obras de "sinfonias de turista".

No palácio real, sentiu-se em casa

Conta-se que ao tocar especialmente para a Rainha Victória, em Londres, no ano de 1842, Mendelssohn surpreendeu a realeza da Inglaterra ao tocar, ao piano, com a mão direita o hino austríaco e, com a esquerda, o britânico. Na saída, o milionário Mendelssohn comentou, sobre a residência oficial de Sua Majestade: "A única casa realmente bonita e confortável de Londres é o Palácio de Buckingham".

Mudança de nome

A conversão da abastada família judia Mendelssohn ao cristianismo, mais precisamente ao luteranismo, foi necessária para que seus membros pudessem ser aceitos no meio da alta burguesia alemã. Com a conversão, muitos da família passaram a adotar o sobrenome Bartholdy, cristão, em lugar do tradicional Mendelssohn, judeu.

Milionário e superficial?


O fato de Mendelssohn ter nascido em uma família rica e, por isso, nunca ter enfrentado qualquer dificuldade material para desenvolver sua carreira de compositor, já foi alvo de críticos mais severos. Alguns deles consideravam que a ausência de obstáculos na vida pessoal teria se refletido na obra de Mendelssohn, que seria autor de uma obra "fácil" e "superficial". Este julgamento, contudo, não se sustenta mais hoje. Mendelssohn é reconhecido como um dos grandes nomes da música do século 19.


Obras

Concertos

Concerto para violino e orquestra em mi menor, opus 64 (1845)
Concerto para piano e orquestra No 1 (1826)

Sinfonias Sinfonia Italiana em lá maior (1833)
Sinfonia Escocesa em lá menor (1842)

Aberturas

As Hébridas (1833)
Sonhos de Uma Noite de Verão (1826)

Oratórios

Paulus (1835)
Elias (1846)


Sites relacionados 

Classical Archives: Mendelssohn - Página com muitos arquivos sonoros em MIDI e MP3. Inclui biografia e linha do tempo. Em inglês.
Félix Mendelssohn: Catalogue des oeuvres - Traz a relação completa das obras do compositor, referências bibliográficas e alguns links interessantes. Em inglês.
BBC: Felix Mendelssohn - Página da rádio inglesa BBC que destaca o compositor, com breve biografia, arquivos sonoros e indicação de gravações em CD. Em inglês.
Mendelssohn-Haus - Página do Museu Mendelssohn, em Leipzig, Alemanha. Inclui galeria de fotos e programação mensal. Em inglês e alemão.
Felix Mendelssohn: Forum Frigate - Lista de discussão sobre a vida e a obra do compositor alemão. Em inglês.
Piano bleu - Página para amantes do piano, traz biografias, discografia e links sobre a vida e a obra de vários compositores, inclusive de Feliz Mendelssohn. Em francês.
Amazon: Mendelssohn - Página da Amazon com grande número de opções de discos, MP3, DVDs e livros sobre a vida e a obra Mendelssohn. Em inglês.
Clássicos - Biografia e comentários sobre a obra de Mendelssohn, com destaque especial para seus concertos para piano. Em português.
Mendelssohn - Página com caricatura, informações sobre a obra e uma ampla discografia, com as melhores gravações disponíveis de Mendelssohn. Em Inglês.

Fonte: Coleção Folha de Música Clássica

domingo, 13 de agosto de 2017

Castrati: a história dos garotos castrados para que possuíssem características únicas na voz

Desde 1500, uma prática nada convencional começou a se popularizar entre líderes de igrejas e regentes de corais. Tratava-se da castração com o intuito de criar um estilo vocal diferenciado em jovens cantores. Com o bloqueio da dihidrotestosterona, que faz as cordas vocais masculinas crescerem em 63% e engrossa a tireoide, os jovens passavam a ter vozes femininas.

Geralmente recrutados aos doze anos, os garotos castrados eram conhecidos como “Castrati” (no singular em italiano, “castrato”), geralmente famílias e regiões pobres depositavam a esperança no talento do garoto. Em 1589, os castrati foram cantar para o Papa na Capela Sistina, mostrando a popularização da prática na época.

Martha Feldman escreveu um livro sobre os cantores Castrati, e, segundo ela, o procedimento realmente fazia a diferença para os rapazes “Havia alto-sopranos, mezzos, e altos, vozes estridentes e doces, vozes altas e maduras, gargantas mais e menos flexíveis, homens muito altos e muito baixos”, conta em um trecho do livro. Eles cantavam em igrejas, tribunais, pontos turísticos, e alguns aposentados davam aulas de música e compunham. Alguns eram cantores de baixa renda que passaram sua vida fazendo shows em cidades pequenas, e outros construíram suas carreiras cantando para ministros em cortes reais. Tudo isso a partir de uma única operação.

A operação



Oficialmente a lei da Igreja proibia a amputação de qualquer órgão, exceto para salvar vidas. Como a prática era ilegal, não há muitos registros detalhados sobre a operação e os cirurgiões permaneceram desconhecidos. Alguns garotos foram enganados pelos pais, que alegavam casos de saúde para a cirurgia. Cirurgiões tentavam usar alguma anestesia, mas elas eram perigosas.

Uma fonte anônima escreveu que os médicos, “davam uma certa quantidade de ópio para o paciente da castração, realizando a operação enquanto eles estavam dopados, mas observou-se que a maioria daqueles que tinham sido operados desta maneira, morriam por complicações das drogas usadas como anestésico”. Na maioria das vezes, os meninos recebiam um banho quente, em seguida, sua artéria carótida era comprimida até que eles praticamente entrassem em coma.

Outra versão do procedimento começaria com um banho frio, ou até mesmo um banho de leite, para entorpecer a área. O procedimento não envolve a amputação. A maioria dos médicos simplesmente abria o escroto e cortava os cordões espermáticos, os canais deferentes e as suas artérias circundantes. Sem o suporte do resto do tecido, os testículos atrofiavam.

Os efeitos da castração

Os efeitos dependiam de algumas condições, como a idade da criança, a competência do cirurgião e as peculiaridades do corpo humano. O filme Farinelli retrata um cantor homônimo muito alto e magro, o que é parcialmente verdade. A maioria dos cantores ganhava protuberâncias em torno do rosto, peito e coxas.

Outras características típicas de um Castrati eram a total falta de barba e a resistência à calvície.

A altura de Farinelli era, para muitas pessoas modernas, um efeito contraditório da castração. Meninos poderiam ter um surto de crescimento durante a puberdade, mas a falta de hormônios faria os castrati serem menores do que os homens médios. O efeito mais comum da castração era estatura incomum: as crianças têm placas epifisárias – “placas de crescimento” – em cada extremidade dos ossos e, durante a puberdade, elas são substituídas por tecido normal, enquanto que as placas de crescimento de um Castrati nunca “fecham”, ou seja, podem continuar crescendo.

A castração também foi associada com maior crescimento do peito, da mandíbula e até do nariz. A voz de um menino bem treinado para cantar era apoiada pelo peito e pelos pulmões, pois a “câmara de ressonância” era maior do que a média, dando aos melhores cantores não apenas uma voz de alta potência, como também sustentação.



Os inconvenientes da castração foram sentidos na fase posterior da vida. Os grandes ossos deixaram muitos Castrati com osteoporose e um corpo maior do que a média, comprimindo seus órgãos.

O castrati Farinelli era o mais famoso. Ele viveu em 1700, mas ainda causava polêmica em 2006, quando um grupo de pesquisa exumou seus restos mortais e os examinou. O que eles encontraram, juntamente com o comprimento dos ossos, foi uma acumulação de osso ao longo da testa, o que indica uma condição chamada hiperostose frontal interna (HFI) – mais comum em mulheres do que em homens, mas ninguém conhece suas causas. De acordo com alguns profissionais médicos, HFI afeta 12% da população e é quase sempre benigna. Apenas em 1% pode causar dores de cabeça terríveis, depressão e outros problemas mentais.

O fim dos Castrati

A prática começou a perder sua popularidade no final dos anos 1700, mas teve uma queda muito lenta. Eles ainda cantavam em igrejas, mas em 1800 já não eram bem vistos em óperas ou em clubes populares. O último cantor castrato da Capela Sistina foi Alessandro Moreschi, que se aposentou em 1913. Em seu auge, ele era conhecido como o “Anjo de Roma”. Algumas gravações dele cantando em 1902 ainda podem ser encontradas em arquivos raros.

Texto: Bruno Rizzato
Publicado no site Jornal Ciência em 19/01/2016. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Connla e a donzela encantada



Connla do cabelo de fogo era filho de Conn das Cem lutas. Um dia, quando se encontrava ao lado do pai no alto do Usna, viu uma jovem donzela com um estranho traje vindo em sua direção.

- De onde você vem, ó donzela? disse Connla.

"Eu venho das planícies dos Sempre Vivos", disse ela, "ali onde não há morte nem pecado. Lá sempre é feriado, e não precisamos da ajuda de ninguém para sermos felizes. E em todo nosso prazer não temos brigas. E como temos nossas casas nas redondas colinas verdes, os homens nos chamam de povo da colina."

" Com quem você está falando, meu filho?, disse Conn, o rei.

Então a donzela respondeu, Connla está falando com uma bela e jovem donzela, que não tem morte nem idade avançada à sua espera. Eu amo Connla, e agora o chamo para ir à planície do Prazer, Moy Tell, onde Boadag é rei há muito tempo, e onde não tem havido queixas e nem tristezas desde que ele assumiu o reinado. Oh venha comigo Connla do cabelo de fogo, ruivo como o poente, e com a pele bronzeada. Uma coroa encantada o espera para adornar sua bela face e seu corpo real. Venha, e que a sua beleza nunca se desvaneça, nem sua juventude, até o último dia terrível do Juízo Final.

O rei, com medo do que ouvira e do que a donzela dissera, apesar de não poder vê-la, chamou em voz alta seu druida, de nome Coran.

"Oh Coran dos muitos encantamentos", disse ele "e da astuta magia, estou pedindo sua ajuda. A tarefa é grande demais para minha capacidade e minha astúcia, maior do que qualquer uma imposta a mim desde que assumi o reinado. Uma donzela invisível veio ao nosso encontro, e através de seu poder quis levar de mim meu filho muito querido e amado. Se você não me ajudar, ele será levado pelas artimanhas e feitiços femininos.

Então Coran, o Druida deu um passo à frente e pronunciou algumas palavras encantadas na direção do local em que a voz da donzela fora ouvida. Ninguém mais ouviu a voz da jovem, e Connla também nunca mais a viu. Mas ao desaparecer mediante o poderoso encanto do druida, ela atirou uma maçã para Connla.

Por um mês inteiro, à partir daquele dia, Connla não quis mais comer  nem beber nada, a não ser aquela maçã, Mas sempre que ele a mordia, o pedaço que ficava faltando crescia novamente mantendo-a sempre inteira. E o tempo todo crescia dentro dele um anseio e um grande desejo pela donzela que havia visto.

Mas quando chegou o último mês de espera, Connla ficou ao lado do rei, seu pai, na planície de Arcomin, e novamente ele viu a donzela vir ao seu encontro e lhe falar.

" É um lugar glorioso, esse que Connla possui entre os mortais de vida breve, que aguardam o dia da morte. Mas agora o povo da vida, os que vivem para sempre, lhe pedem e rogam para que venha a Molly Mell, a planície do prazer, pois aprenderam a conhecê-lo, vendo-o em sua casa entre seus entes queridos.

Quando Conn, o rei ouviu a voz da donzela chamou seus homens em voz alta e disse:

"Venha logo, meu druida Coran, pois vejo que hoje ela está de novo com o poder da fala."

Então a donzela disse: " Ó poderoso Conn, guerreiro das cem lutas, o poder do druida não é muito bem-vindo, tem pouca honra nesse país poderoso, com uma população tão honrada. Quando a lei chegar, acabará com os encantamentos mágicos dos druidas, que vê dos lábios do falso demônio negro".

Então Conn, o rei observou que, desde que a donzela chegara, Connla não falara com ninguém. Por isso, Conn das cem lutas disse a ele:

" É sua opinião também o que a mulher está dizendo meu filho?"

"É difícil pra mim, disse Connla; amo meu povo sobre todas as coisas, mesmo assim, um grande anseio pela donzela me domina".

Quando a donzela ouviu isso, respondeu dizendo: "O oceano não é tão forte quanto as ondas do seu anseio. Venha comigo em minha curragh, a brilhante, deslizante canoa de cristal. Logo alcançaremos o reino de Boadag. Vejo o brilhante sol se pondo e mesmo longe como está, podemos chegar lá antes que escureça. Lá estará, também, outro país que vale a jornada, um país acolhedor para todos que o buscam. Só esposas e donzelas o habitam. Se você quiser, podemos procurá-lo e viver lá sozinhos, juntos e felizes."

Quando a donzela parou de falar, Connla do cabelo de fogo fugiu deles e saltou dentro da curragh, a canoa de cristal brilhante e deslizante. E então todos eles, rei e corte, viram-na  deslizar sobre o mar brilhante em direção ao sol poente, afastando-se cada vez mais , até os olhos não conseguirem mais vê-la.

Connla e a donzela encantada abriram caminho  no mar, nunca mais foram vistos, e ninguém nunca soube onde chegaram.

Fonte: Celtic Fairy Tales
Tradução: Inês A. Lohbauer

domingo, 23 de abril de 2017

Manuel Francisco Isaac Albéniz - Compositor e pianista espanhol

Compositor nacionalista espanhol nascido em Camprodón, província de Gerona, um dos mais originais representantes do nacionalismo musical de seu país em fins do século XIX. 

Com apenas quatro anos deu seu primeiro recital de piano em Barcelona, e a partir dos dez realizou numerosas turnês de concertos, tanto na Espanha como pela Europa e América Latina. 

Ao mesmo tempo, continuou aperfeiçoando sua formação musical, fundamentalmente em Barcelona e nos conservatórios de Leipzig e Bruxelas; neste último obteve o primeiro prêmio de piano. 

Depois de seu casamento (1883), entrou em contato com o maestro Felipe Pedrell, pioneiro da música nacionalista espanhola, que despertou nele o interesse pela composição.



Em busca de novos conhecimentos musicais mudou-se (1893) para Paris, onde em contato com um grupo de músicos que estudavam profundas propostas de renovação estética, entre os quais se destacavam Claude Debussy e Gabriel Fauré extraiu sua técnica de composição, mantendo um estreito vínculo com a sensibilidade musical e o folclore de seu país. 

O resultado foi uma extensa e original produção musical composta de mais de 200 peças de diversos gêneros musicais: zarzuelas e dramas líricos, entre os quais se destaca Pepita Jiménez (1896); suítes orquestrais, como Cataluña; obras camerísticas e canções.

Seus melhores trabalhos, no entanto, foram as peças para piano, como Suite española e Rapsodia española, nas quais o espírito da música hispânica tradicional aparece refletido com magistral síntese. Sua principal obra nesse sentido seriam as 12 composições pianísticas da Suite Iberia (1906-1909), que, a par de sua enorme complexidade técnica, representou uma radical inovação dentro da música nacionalista espanhola. 

Morreu relativamente jovem, em plena maturidade criativa, em Cambo-les-Bains, França.


Leyenda by Albeniz in HD - Andres Segovia



Ana Vidovic plays Granada by Isaac Albéniz




Referências Bibliográficas

COSTA, Keilla Renata. "Manuel Francisco Isaac Albéniz"; Brasil Escola. Disponível em . Acesso em 23 de abril de 2017.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Yoio Cuesta

Yoio Cuesta é uma cantora de jazz espanhola, foi participante do The Voice Espanha e seu primeiro álbum é o Back to the 40's.





Ela é uma das cantoras mais conhecidas em Madrid, em parte por causa desse álbum que foi muito bem recebido pela crítica e público.

Espero que gostem.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

McNally Jackson Bookstore




Muito se pensou que as livrarias independentes estariam extintas nessa época principalmente por causa de 10 anos de recessão e da queda de lucro das pequenas lojas causada pela força das grandes redes de livrarias e pelo uso do Kindle, saber que a McNally Jackson Books ainda existe é um milagre.

Aberta em 2004, oriunda de uma família livreira canadense com lojas em Winnipeg e Saskatoon, 

A loja foi inaugurada como McNally Robinson e em Agosto de 2008 se tornou McNally Jackson. 

Localizada na parte baixa de Manhattan.






A livraria é linda, iluminada e aberta, moderna mas aconchegante. Os assoalhos de madeira desgastados contrastam com o vidro e a escada em alumínio escovado que leva ao andar de baixo, com um lindo lustre que está localizado sobre a escada. 




A loja tem seu toque pessoal, cada expositor na livraria tem um pedaço de pano e flores, um toque que McNally aprendeu com sua mãe ao crescer. Da mesma forma, o papel de parede que decora o café é inteiramente composto de páginas da própria coleção de livros de McNally.





Me parece reconfortante sentar no café cercado por todas essas páginas de livros, lidas e marcadas com caneta pela proprietária, traduzindo assim a silenciosa conversa entre leitor e livro. 

Clique nas fotos para ampliar: 

















Máquina para imprimir os livros on demand
Endereço: 52 Prince St, New York, NY 10012, EUA
Site: www.mcnallyjackson.com

domingo, 13 de março de 2016

Béla Bartok



Béla Viktor János Bartók, compositor e pianista húngaro, que se destacou como pesquisador de música folclórica da Europa Oriental, morreu em Nova York em 26 de setembro de 1945. Bartók foi um dos fundadores da etnomusicologia, ciência que estuda a música em seu contexto cultural ou a antropologia da música (Merriam, 1964).

Bartók nasceu em 1881 em Nagyszentmiklós, região situada na confluência das culturas húngara, romena e eslovaca e tradicional foco de oposição aos Habsburgos. Sua mãe deu-lhe as primeiras aulas de piano aos cinco anos. Em 1888, com a morte do país, a família passou a viver em Vinogradiv, atual Ucrânia.

Com 11 anos, Bartók deu seu primeiro concerto: o allegro da sonata Waldstein, de Beethoven, e sua composição O Curso do Danúbio. A família se trasladou então a Presburgo, atual Bratislava, capital da Eslováquia, onde László Erkel lhe ensinou harmonia e piano.

Com 17 anos, ingressa na Academia de Música. Lá conhece Zoltan Kodály, com quem empreenderia uma recopilação da música folclórica húngara. Em 1903 compõe um extenso poema sinfônico, Kossuth, herói da revolução húngara de 1848.

A partir de 1905, aprofunda seus conhecimentos da música tradicional e canções folclóricas magiares.

Junto com Kodály percorre os povoados da Hungria e da Romênia, recolhendo num gramofone milhares de canções. Fizeram o mesmo com boa parte da Europa Central e até da Turquia. 

Pensava-se que a música folclórica húngara se baseava em melodias zíngaras, como as rapsódias compostas por Liszt. No entanto, Bartók descobriu que as antigas melodias húngaras se baseavam em escalas pentatônicas, a exemplo da música asiática ou siberiana.

Em 1905, adota Paris por motivo do concurso Rubinstein. Afasta-se da religião e se declara um “ateu profundo e sereno”. Em 1916, contudo, anuncia publicamente sua conversão ao unitarismo.

Em 1907, compõe Três Canções Populares Húngaras e no ano seguinte, Quarteto para Cordas. 

Em 1909, casa-se com Marta Ziegler, sua aluna de 16 anos. Em 1911, escreveu sua única ópera, “O Castelo de Barba Azul”, que só estreou em 1918, com a condição que apagasse do programa o nome do libretista, Bela Balazs, devido às suas ideias políticas. Bartok se negou.

Continuou concentrado em recolher a música folclórica da Europa Central, Bálcãs e Turquia. Durante a I Guerra Mundial compôs dois balés: “O Príncipe de Madeira” e “O Mandarim Maravilhoso”, duas sonatas para violino e piano, peças harmônica e estruturalmente complexas.

Bartók se divorciou de Marta em 1923 e se casou com uma estudante de piano, Ditta Pásztory, com quem fez uma turnê pela Europa interpretando concertos para dois pianos.

Em 1927-1928 compôs o 3º e 4º de Cordas, considerados uns dos mais importantes da música clássica. O 5º Quarteto retorna a uma linguagem harmônica mais simples. O 6º Quarteto foi escrito em 1939.

Entrementes, Hitler e a II Guerra Mundial iriam provocar impacto em sua vida. Bartók jamais se comprometeu com regimes fascistas. Opôs-se a Horty quando integrou a Hungria na esfera nazista. Mudou de editor quando este se afiliou ao nazismo. Pediu que sua música fosse incluída na “exposição sobre a música degenerada” patrocinada pelos nazistas em Düsseldorf.

Com o início da guerra, foi tentado a deixar a Hungria. Compõe então “Contrastes”, um de seus últimos grandes êxitos. Em agosto de 1940 muda-se para os Estados Unidos e pouco depois se alista na Força Naval norte-americana.

No entanto, Bartók sentia-se profundamente afetado pelo exílio. No começo foi bem recebido, porém recusou um posto de professor de composição na Curtis University embora tenha aceitado o título de doutor honoris causa pela Universidade de Columbia. Apesar de ser celebrado como etno-musicólogo e pianista, não era reconhecido como compositor e havia pouco interesse em sua música e a crítica era severa. Por outro lado, a Casa Baldwin requisitou um piano emprestado, o que o impediu de realizar concertos com sua mulher Ditta.

Em princípios de 1943, deu seu último concerto como intérprete quando os primeiros sintomas de leucemia já se manifestavam. Estimulado pelos colegas músicos norte-americanos recobra confiança e compõe o Concerto para Orquestra que lhe foi encomendado pelo maestro Serge Koussevitzki, a obra mais popular de Bartók. Animado, compõe ainda o Concerto para Piano nº 3 e o Concerto para Viola. A pedido do extraordinário violinista Yehudi Menuhin, compôs a Sonata para Violino Solo.

Com a libertação da Hungria, o país lhe ofereceu ser deputado. Aceitou, mesmo sabendo que não poderia assumir. Em setembro de 1945, morre em Nova York de leucemia. Foi enterrado no cemitério Ferncliff. Porém, em julho de 1988, seus restos foram transferidos para Budapeste a pedido dos filhos.

A música de Bartók está baseada em grande parte em suas investigações sobre o folclore e poderia dividir-se em dois grandes blocos, distintos quanto à concepção, todavia complementares entre si, chegando a alternar-se inclusive numa mesma obra em diferentes seções. São o sistema diatônico, fundado na música folclórica, seus modos e ritmos e na escala acústica; e o sistema cromático, influenciado também pelo folclore.




Fonte: Opera Mundi